segunda-feira, 7 de junho de 2010

Cavalheiro de gelo

Chegara após o almoço já pensando na hora de ir embora. Desejava estar na praia, ainda que não gostasse muito de praia; Lamentava um dia de estudo perdido, mesmo que não tocasse em um livro há meses. Qualquer coisa lhe pareceria mais confortável do que encontrar esparramado na cama o corpo débil e doente da senhora, antes tão vigorosa, que esperava-o no andar de cima. Quando a encarava, era um tanto quanto difícil manter-se dentro de sua rotineira armadura.
Assim foi, tudo corria bem até o momento em que a senhora se pôs a falar de uma suposta mocinha a qual havia sido confiado os cuidados de sua saúde. Contou-lhe que a menina era conhecida entre todos por sua afetuosidade e personalidade amistosa. Eram palavras doces e casuais que soavam como navalhas rente a carne. Pois no seu intimo, ele desejara assim ser, afetuoso, doce e gentil, um verdadeiro cavalheiro. Mas sabia bem que não passava de um cavalheiro de gelo. Mantendo sempre uma distancia segura, rodeando-se de indiferença, trancafiando sentimentos atrás de uma face serena. Com um tranquilo caminhar escondia um furacão; Por fora era de gelo, por dentro um vulcão em erupção. Era do tipo que passava um misto de confiança com temor, mas o que ninguém sabia era que ele por si só era o mais covarde dos homens.
Na verdade, tudo que desejava naquele infortunado dia era dizer a senhora que a amava , muito e de verdade, antes que fosse tarde demais. Mas não foi capaz. Diante disso, teve vontade de chorar porém se conteve, pois as lágrimas derreteriam o gelo, pertubariam a face serena e comprometeriam o andar tranquilo. Foi então que com grande pesar teve a certeza de que a armadura que antes lhe servira de defesa, hoje era uma prisão.

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